Estabelecido em São Paulo desde o início da década de 1960, Pai Ajaocí tornou-se uma referência religiosa especialmente na região do Rio Pequeno, onde conduziu sua casa espiritual, conhecida como Casa do Boiadeiro Rei da Hungria. Seu terreiro não era apenas um espaço de culto, mas também um lugar de acolhimento, formação religiosa, transmissão de saberes e resistência cultural, em um contexto urbano ainda fortemente marcado pela intolerância religiosa e pelo racismo estrutural.
Como sacerdote e filho de Nanã, orixá da ancestralidade profunda, do barro primordial e da memória dos mais velhos, Pai Ajaocí era reconhecido por sua condução ritual firme, ética e cuidadosa, pautada no respeito absoluto à tradição, na centralidade dos mais velhos e na preservação rigorosa dos fundamentos do àṣẹ. Sua atuação dialogou com diversas casas de àṣẹ, formou filhos e filhas de santo e manteve vivos os vínculos com as linhagens e tradições oriundas da Bahia.
Entre os filhos formados por Pai Ajaocí está Thonny Hawany, filho de Ọya, iniciado por ele em 25 de outubro de 1985, na cidade de São Paulo. Essa relação de paternidade espiritual foi marcada pela fidelidade, pelo respeito e pela observância rigorosa dos ensinamentos recebidos. Ao longo de toda a sua trajetória religiosa, Thonny Hawany manteve-se fiel aos fundamentos transmitidos por Pai Ajaocí, honrando-os em sua prática cotidiana, em sua condução sacerdotal e na edificação do Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn.
O nome de Pai Ajaocí de Nanã aparece em registros acadêmicos e levantamentos sobre os Candomblés de São Paulo, o que confirma a relevância de sua trajetória para além da memória oral das comunidades de àṣẹ. Ainda assim, como ocorre com muitos sacerdotes e sacerdotisas das religiões de matriz africana, grande parte de seu legado permanece viva principalmente na oralidade, na lembrança de seus filhos espirituais e na continuidade ritual de sua descendência religiosa.
Ao registrar a memória de Pai Ajaocí de Nanã, o Blog do Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn reafirma seu compromisso com a valorização das trajetórias negras, religiosas e ancestrais que ajudaram a construir o Candomblé no Brasil. Honrar Pai Ajaocí é reconhecer aqueles e aquelas que, com coragem, fé e dedicação, sustentaram o àṣẹ em tempos difíceis e abriram caminhos seguros para as gerações que vieram depois.
Àṣẹ à memória de Pai Ajaocí de Nanã.
Referencial teórico:
PRANDI, Reginaldo. Os candomblés de São Paulo: a velha magia na metrópole nova. São Paulo: Hucitec; Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP), 1991.
SILVA, Vagner Gonçalves da. Orixás da metrópole. Petrópolis: Vozes, 1995.
SILVA, Vagner Gonçalves da. Candomblé e Umbanda: caminhos da devoção brasileira. São Paulo: Selo Negro, 2005.
SÃO PAULO (Estado). Levantamentos e registros de casas de matriz africana na cidade de São Paulo. Décadas de 1980–1990. Documentos técnicos e bases de dados institucionais utilizados por pesquisadores do campo das religiões afro-brasileiras.
HAWANY, Thonny. Depoimento pessoal e memória sacerdotal sobre Pai Ajaocí de Nanã. Iniciação realizada em 25 out. 1985. Fonte oral direta, preservada no âmbito do Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn.
Texto organizado pelo bàbá Thonny Hawany.

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