terça-feira, 10 de março de 2026

35 ANOS DO ÀṢẸ OJÚ OÒRÙN: TERRITÓRIO E RESISTÊNCIA

Em 10 de março de 1991, na cidade de Caetité, nasceu o Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn, erguido com a missão de edificar a fé em Òrìṣà em um território onde essa tradição ainda não encontrara chão estruturado. O que ali começou foi mais que um terreiro: foi a semente de uma presença ancestral contracolonial, destinada a escrever uma história de reparação, afirmação e empoderamento de homens e mulheres descendentes afro-brasileiros, que reconheceram no Ojú Oòrùn o nascedouro de um território capaz de iluminar e fazer ecoar, por todos os cantos, a cultura afrodiaspórica historicamente deturpada pelos ideais colonialistas que marcaram a região.

Em 10 de março de 2026, nós do Ojú Oòrùn, comemoramos mais que o aniversário de fundação da nossa comunidade, comemoramos a presença viva de Orixá em nossas vidas por três décadas e meia e a formação de uma família espiritual de mais de uma centena de filhos e filhas, dezenas de netos e netas, matriz de dez terreiros afiliados e referência cultural reconhecida em todo o território.

Com 35 anos de existência, o Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn se consolidou como espaço de formação, resistência cultural, preservação de memória e afirmação identitária. Fez-se casa de fé, mas também casa de educação, de diálogo social e de promoção da dignidade humana.

Trinta e cinco anos representam mais que permanência. Representam maturidade institucional, legitimidade espiritual e compromisso contínuo com as gerações futuras.

O que começou sob palhas de licuri tornou-se comunidade consolidada. O que nasceu da expulsão e do preconceito transformou-se em pertencimento. O que foi sonho tornou-se legado.

O que pedimos a Deus e a Orixá? Que os próximos anos sejam ainda mais férteis. Que Ọ̀ya continue soprando movimento e coragem. Que Ọ̀ṣọ́ọ̀sì continue abrindo caminhos com precisão. E que o sol — Ojú Oòrùn — permaneça iluminando cada passo dessa história.

Para assistir o vídeo comemorativo, clique AQUI

Referencial:

HAWANY, Thonny. 35 anos do Àṣẹ Ojú Oòrùn: território e resistência. Entrevista concedida em 10 mar. 2026, Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn, Caetité (BA).

sábado, 28 de fevereiro de 2026

OJÚ OÒRÙN É PONTO E PONTÃO DE CULTURA


É com alegria, senso de responsabilidade e profundo sentimento de gratidão que anunciamos: o Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn é oficialmente Ponto e Pontão de Cultura.

A certificação foi conferida pelo Ministério da Cultura, por meio do Programa Nacional Cultura Viva, reconhecendo o trabalho contínuo, coletivo e comprometido que nossa comunidade desenvolve ao longo dos anos. Essa dupla certificação não é apenas um título institucional — é o reconhecimento público de uma história construída com ancestralidade, resistência e criatividade.

Ser Ponto de Cultura significa integrar uma rede nacional de iniciativas culturais vivas, enraizadas nos territórios e comprometidas com a transformação social por meio da arte e da educação. Ser também Pontão de Cultura amplia essa responsabilidade: torna-nos articuladores de redes, formadores de outros coletivos, irradiadores de experiências e saberes.

Essa conquista não pertence apenas à nossa instituição. Ela é fruto do trabalho das nossas fazedoras e dos nossos fazedores de cultura — artistas de todas as idades, educadores, mestres da tradição, jovens aprendizes, parceiros e apoiadores que mantêm viva a chama da produção cultural comunitária.

É resultado de ações coletivas, de encontros, de projetos realizados com coragem e fé no poder transformador da cultura.

Assumimos, com ainda mais compromisso, a tarefa de ampliar oportunidades de formação, circulação artística e participação comunitária. Seguiremos fortalecendo práticas artísticas, educativas e de memória coletiva, promovendo rodas de saberes, oficinas, apresentações culturais e ações que valorizem os saberes afro-brasileiros e populares.

Continuaremos sendo espaço de encontro, resistência e inovação — um território onde a cultura é vivida como direito, como expressão de identidade e como instrumento de emancipação.

Este reconhecimento também foi possível graças às instituições e coletivos que confiaram em nosso trabalho e nos apresentaram como Ponto e Pontão de Cultura. Manifestamos nossa profunda gratidão ao:

  • Quilombo do Tomba
  • Grupo de Capoeira Nossa Cultura
  • Nego D’Água
  • Secretaria de Cultura de Paratinga
  • Museu Alto Sertão Baiano
  • Casa Anísio Teixeira
  • Universidade do Estado da Bahia
  • Secretaria de Cultura de Caetité

Cada carta de apoio representou um gesto de confiança e de reconhecimento mútuo. Cada parceria reafirma que cultura se constrói em rede.

Que esta certificação inspire novas parcerias, novos projetos e novos investimentos. Que sirva de incentivo para que mais coletivos resistam, floresçam e fortaleçam seus territórios.

O Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn permanece de portas abertas, sustentado por sua ancestralidade, guiado por seus princípios e comprometido com seu território — a serviço da cultura, da comunidade e da vida.

ÀJÒDÚN MARCA OS 40 ANOS DE INICIAÇÃO DO BÀBÁLÓRÌṢÀ THONNY HAWANY

 

No dia 31 de janeiro de 2026, a comunidade do Ojú Oòrùn realizou a celebração dos 40 anos de iniciação do bàbálórìṣà Antônio Carlos da Silva Costa de Souza, conhecido religiosamente como Thonny Hawany, Olórí Ẹgbẹ́ da instituição. A cerimônia foi conduzida por Ìyá Jucineia Silva Alves Ferreira dos Santos — ìyálórìṣà do Ilé Àṣẹ Ìràwọ̀ Nà-Bùkú, mais conhecida como Mãe Neinha de Nàná.

Iniciado em 25 de outubro de 1985 pelo saudoso Pai Ajaosi de Nàná (Joselito de Souza Costa), o bàbálórìṣà completa quatro décadas de trajetória religiosa marcada pela formação de filhos e filhas de santo, pela expansão territorial do Ojú Oòrùn e pelo fortalecimento das tradições afro-brasileiras em diferentes regiões do país.

A celebração teve caráter ritual e comunitário. Reuniu amigos, filhos, netos e membros da família religiosa em um momento de reafirmação dos laços espirituais e da continuidade da linhagem. Mais do que um marco cronológico, o àjòdún foi compreendido como renovação de compromisso.

“Comemorar 40 anos é mais do que celebrar uma passagem de tempo. Representa renovar o compromisso firmado no ato da iniciação, o juramento feito ao Obí e a Ọ̀yá”, declarou o bàbálórìṣà durante a celebração.

A presença de Mãe Neinha de Nàná no território teve significado simbólico e formativo. Segundo a ìyálórìṣà, o momento também representou reencontro e fortalecimento coletivo: “Foi tempo de reunir filhos e netos em Caetité e de celebrar Ọ̀yá e Ọ̀sóòsì na vida da comunidade”.

O Ojú Oòrùn possui atuação consolidada nas cidades de Caetité, Guanambi, Brumado e Bom Jesus da Lapa, na Bahia, além núcleos em Porto Velho, no Estado de Rondônia. Ao longo das últimas décadas, a casa ampliou sua presença religiosa e cultural, articulando práticas litúrgicas, ações comunitárias e atividades de valorização da identidade afro-brasileira.

Para Jefferson Wagner, Bábá Ẹgbẹ́ da comunidade, a celebração representou “um momento de renovação espiritual e de entrega coletiva ao sagrado” por parte de todos os envolvidos direta e indiretamente.

Do ponto de vista histórico, quatro décadas de iniciação significam permanência, maturidade e responsabilidade. Em tradições de matriz africana, o tempo não é apenas contagem cronológica: é acúmulo de experiência, autoridade ritual e compromisso com a transmissão do saber ancestral.

A celebração dos 40 anos reafirma não apenas a trajetória individual do bàbálórìṣà Thonny Hawany, mas também a continuidade de uma linhagem que atravessa gerações, territórios e contextos sociais distintos. Trata-se de um marco que evidencia como a tradição se mantém viva por meio da prática, da memória e da responsabilidade coletiva.

O Pejigán Reginaldo Conceição completou afirmando que, ao celebrar 40 anos de vida religiosa, o bábá Thonny renovou o seu pacto ancestral firmado com Nàná e Ọ̀ya. Nessa etapa da caminhada, fortaleceu-se a Egbé com o Àṣẹ do tempo, irradiando-o sobre a grande família de culto que se estende para além do Ojú Oòrùn.

Mais do que recordar o passado, o àjòdún aponta para o futuro — renovando o Àṣẹ, fortalecendo vínculos e reafirmando o compromisso com a ancestralidade e com a cultura afro-brasileira.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Bàbá Manoel Cerqueira de Amorim: linhagem, memória e herança de àṣẹ

A história do Candomblé baiano no século XX é tecida não apenas por grandes casas e nomes amplamente consagrados, mas também por sacerdotes cuja importância se revela sobretudo na transmissão da linhagem, na formação de novas lideranças e na consolidação de casas responsáveis pela preservação de tradições ancestrais. Entre esses nomes, inscreve-se o bàbálórìṣà Manoel Cerqueira de Amorim (Pai Nezinho da Muritiba), personalidade fundamental cuja herança ritual, de modo descendente, alcança diretamente a trajetória do bàbálórìṣà Antônio Carlos da Silva Costa de Souza (Thonny Hawany), a partir do momento em que este toma àṣẹ com a ìyálórìṣà Jucineia Silva Alves Ferreira dos Santos, mais conhecida no campo religioso como mãe Neinha de Nà-Bùkú, filha de àṣẹ de Seu Nezinho.

Bàbá Manoel Cerqueira de Amorim foi reconhecido como bàbá Egbe do Ilé Àṣẹ Omi Ìyámasé (Àṣẹ Gantois), casa de referência na história religiosa da Bahia, o que o situa em uma linhagem de alta relevância no campo ritual nagô-ketu. A condição de bàbá Egbe não apenas o vinculava a uma das mais tradicionais casas do país, mas o colocava como elo ativo na circulação de saberes, ritos e fundamentos que estruturam a continuidade do culto aos òrìṣà.

Além dessa ligação com o Gantois, Manoel Cerqueira de Amorim foi fundador do Ilé Ibẹ̀se Alaketu Ògún Mejeje, casa que se tornou espaço de formação, acolhimento e transmissão ritual, consolidando sua atuação como sacerdote fundador e organizador dessa importante comunidade religiosa. É nesse terreiro que se estabelece uma das heranças mais diretas de sua atuação: ali se forma sua filha de santo Ìyá Neinha de Nàná, que viria a tornar-se, mais tarde, ìyálórìsà de Thonny Hawany.

Desse modo, a história de Manoel Cerqueira de Amorim não é apenas um dado historiográfico ou uma referência distante. Ela se converte em história de linhagem viva. Ao tomar obrigação com Ìyá Neinha de Nàná, sua filha direta de santo, Thonny Hawany inscreveu-se nessa cadeia de transmissão, fazendo de Manoel Cerqueira de Amorim seu avô de àṣẹ — não apenas por definição ritual, mas como presença simbólica que atravessa sua formação, seus fundamentos e seu pertencimento a uma tradição específica do Candomblé nagô.

Assim, recordar Manoel Cerqueira de Amorim é reconhecer que a identidade religiosa não se constrói apenas no presente, mas se ancora em uma genealogia espiritual que nos precede a todos. É nessa continuidade entre casas, pais, mães e filhos de santo que o àṣẹ se preserva, se renova e encontra sentido. A trajetória de Thonny Hawany, portanto, não começa em si ou por si: ela se enraíza na obra de sacerdotes como Manoel Cerqueira de Amorim, cuja memória permanece inscrita no corpo ritual da iniciação e tatuada no legado ancestral.

Referências:

LIMA, Vivaldo da Costa. A família de santo nos candomblés jejes-nagôs da Bahia: um estudo de relações intra-grupais. 2. ed. Salvador: Corrupio, 2003.

SANTOS, Jucineia Silva Alves Ferreira dos. Informações sobre a linhagem de Manoel Cerqueira de Amorim. Depoimento oral concedido a Thonny Hawany. Caetité (BA), 2026.

Ìyá Jucineia Silva Alves Ferreira dos Santos: acolhimento e continuidade de um legado

Com o falecimento de seu pai de àṣẹ Joselito de Souza Costa, mais conhecido entre o povo do Candomblé como bàbá Ajaosi de Nà-Bùkú, o bàbálórìṣà Thonny Hawany tomou àṣẹ com a ìyálórìṣà Jucineia Silva Alves Ferreira dos Santos, amplamente conhecida como Mãe Neinha de Nà-Bùkú, em janeiro de 2018. A partir desse rito de passagem, passou formalmente a integrar uma das mais importantes e respeitadas linhagens do Candomblé de raiz baiana, reafirmando sua continuidade iniciática dentro de uma genealogia ritual profundamente ancorada na tradição nagô-ketu.

Mãe Neinha de Nàná é fundadora e dirigente espiritual do Ilé Àṣẹ Ìràwọ̀ Nà-Bùkú, localizado no município de Juquitiba, no estado de São Paulo. Sua casa de santo constitui hoje um polo de preservação da memória, da liturgia e da ética ritual do Candomblé tradicional, mantendo viva a transmissão de fundamentos, cantigas, rezas, preceitos e obrigações herdadas de suas casas-matrizes na Bahia. Ao longo de sua trajetória, Mãe Neinha consolidou-se como referência religiosa não apenas para seus filhos e filhas de santo diretos, mas também para toda uma rede ampliada de descendência ritual espalhada por diferentes estados brasileiros.

Sua formação espiritual está enraizada em uma das mais antigas e prestigiadas genealogias do Candomblé brasileiro. Mãe Neinha foi iniciada pelo saudoso bàbálórìṣà Manoel Cerqueira de Amorim, fundador do Ilé Àṣẹ Ibese Alaketu Ògún Mejeje, também conhecido como Àṣẹ Muritiba. Esta casa, por sua vez, descende diretamente do Ilé Àṣẹ Omi Ìyámasé — mais conhecido como Àṣẹ Gantois — uma das grandes casas-matrizes do Candomblé da Bahia, formada como dissidência histórica do Ilé Àṣẹ Ìyá Naso Oká, a célebre Casa Branca do Engenho Velho, fundada por Ìyá Francisca da Silva (Ìyá Nassô) por volta de 1830.

Essa linhagem — Casa Branca → Gantois → Muritiba → Ilé Àṣẹ Ìràwọ̀ Nà-Bùkú — inscreve Mãe Neinha em uma cadeia iniciática que remonta aos primórdios da institucionalização do Candomblé nagô na Bahia, conectando-a diretamente às matrizes fundacionais da religião no Brasil. Trata-se, portanto, de uma herdeira legítima de um corpo ritual que atravessou quase dois séculos de perseguições, resistências, reorganizações territoriais e reafirmações identitárias.

Ao transmitir o àṣẹ a Bàbá Thonny Hawany após a morte de Pai Ajaosi de Nà-Bùkú, Mãe Neinha não apenas garantiu a continuidade ritual de sua descendência espiritual em São Paulo e na Bahia, como também reforçou, no plano simbólico e genealógico, os laços entre o Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn e as grandes casas-matrizes do Candomblé baiano. Esse gesto inscreve o Ojú Oòrùn em uma rede de pertencimento ritual que ultrapassa fronteiras geográficas e reafirma sua legitimidade histórica, litúrgica e ancestral.

Referencial teórico:

BASTIDE, Roger. O candomblé da Bahia: rito nagô. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1978.

CAPONE, Stefania. A busca da África no candomblé: tradição e poder no Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2004.

CARNEIRO, Edison. Candomblés da Bahia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

LIMA, Vivaldo da Costa. A família de santo nos candomblés jeje-nagôs da Bahia. Salvador: Corrupio, 2003.

PARÉS, Luis Nicolau. A formação do candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia. Campinas: Editora da Unicamp, 2006.

PRANDI, Reginaldo. Segredos guardados: orixás na alma brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

SILVA, Vagner Gonçalves da. Orixás da metrópole. São Paulo: Vozes, 1995.

VERGER, Pierre Fatumbi. Notas sobre o culto aos orixás e voduns na Bahia de Todos os Santos e na antiga Costa dos Escravos. São Paulo: Edusp, 1999.

Fontes orais:

HAWANY, Thonny. Depoimento oral e registros de memória sobre a sucessão ritual da linhagem de Nà-Bùkú. Caetité (BA), [2026]. Comunicação pessoal.

SANTOS, Jucineia Silva Alves Ferreira dos. Depoimento oral concedido a Antônio Carlos da Silva Costa de Souza (Thonny Hawany). Juquitiba (SP), [20/01/2026]. Comunicação pessoal.

Bàbá Justiniano Rodrigues de Souza: história, memórias e legado

Quando se iniciou esta pesquisa, os dados disponíveis sobre Justiniano Rodrigues de Souza eram ainda fragmentários e marcados por grande incerteza. No entanto, os levantamentos realizados até o presente momento já permitem delinear um conjunto significativo de informações, capazes de oferecer um primeiro quadro histórico consistente sobre sua trajetória ritual e seu legado no Candomblé baiano.

O bàbálórìṣà Justiniano Rodrigues de Souza, mais conhecido entre os praticantes do Candomblé da Bahia como bàbá Lẹ́ndẹ̀nbẹ̀ — nome cuja interpretação etimológica corrente remete à ideia de “aquele que chegou e se estabeleceu no lugar” — foi iniciado por Pai Jidená, em data e local ainda não confirmados pelas fontes disponíveis até o momento, permanecendo este ponto como uma lacuna aberta à continuidade da investigação.

Segundo o ọ̀gá Ubirajara Barbosa Fonseca, mais conhecido como Bira de Ògún, pai Justiniano Rodrigues de Souza foi fundador do terreiro Viva Deus Ofi Obá Olórun, localizado no distrito de Acupe, pertencente ao município de Santo Amaro da Purificação, no Estado da Bahia. Conforme informou o ọ̀gá Moacir Dias Queiroz, filho de Àṣẹ de pai Justiniano, o referido terreiro foi posteriormente desativado, deixando de existir como espaço ritual e tendo sido integralmente convertido em residência, o que evidencia processos de apagamento material de importantes casas tradicionais do Candomblé no Recôncavo Baiano.

Além do terreiro de Acupe, há indícios de que pai Justiniano tenha sido também fundador de outros dois terreiros de Candomblé: um na Vila de São Francisco, em Santo Amaro da Purificação, e outro na cidade de Feira de Santana. Este último foi visitado pessoalmente pelo autor em viagem realizada no final da década de 1990, constituindo-se tal experiência em testemunho direto de sua existência e funcionamento, o que reforça a confiabilidade desta informação.

Ainda conforme o ọ̀gá Ubirajara Barbosa Fonseca, atualmente residente no Estado de São Paulo, pai Justiniano Rodrigues de Souza teria sido iniciado na tradição Jeje, inicialmente para Ọ̀ṣùn. Segundo o mesmo informante, ao longo de sua trajetória ritual, pai Justiniano realizou obrigações em diferentes nações, circunstância que resultou na constituição de uma prática religiosa marcada pela confluência das tradições Jeje, Angola e Ketu, configurando um Candomblé de caráter híbrido, típico dos processos históricos de circulação, adaptação e recomposição das matrizes africanas no Brasil.

Nas verificações realizadas até o presente momento, constatou-se a existência de registros de filhos e filhas de pai Justiniano iniciados tanto para Òrìṣà quanto para Nkisi. Entre estes últimos, destacam-se Sônia, em Feira de Santana, e Tesanjile, no Recife, ambos iniciados para o Nkisi Ktembo. Tal diversidade de filiações rituais reforça o caráter plural de sua linhagem, evidenciando uma prática religiosa estruturada na confluência efetiva entre diferentes matrizes do Candomblé.

A pesquisa segue em curso, buscando, identificando e apurando informações junto a filhos e netos de pai Justiniano acerca de sua vida e de sua trajetória de Àṣẹ. A seguir, enumero, em ordem alfabética, alguns nomes de filhos e netos de Àṣẹ com os quais dialoguei diretamente no âmbito desta investigação. Do mesmo modo, registro também os nomes de outros filhos e netos que foram mencionados pelos entrevistados ao longo da pesquisa.

Filhos de santo conhecidos de Justiniano Rodrigues de Souza (Lẹ́ndẹ̀nbẹ̀)

Até o presente estágio da pesquisa, foram identificados os seguintes filhos e filhas de santo:

Cosme de Ọya – bàbálórìṣà na cidade de Feira de Santana (BA) – vivo;

João de Ọya – bàbálórìṣà em Acupe, distrito de Santo Amaro da Purificação (BA) – falecido;

Joselito de Souza Costa – bàbálórìṣà na cidade de São Paulo (SP) – falecido;

Liomário Silva dos Santos – bàbálórìṣà na cidade de Sobara 9BA) – vivo;

Maria Amália Gonçalves (Obà) – ìyálórìṣà na cidade de Feira de Santana (BA) – falecida;

Moacir Dias Queiroz – filho de Helena Dias Queiroz e de Afonso Queiroz – Feira de Santana (BA);

Moacir Dias Queiroz – ọ̀gá em Acupe, distrito de Santo Amaro da Purificação (BA) – vivo;

Perolina Moreira da Silva – ìyálórìsà na cidade de Sobara (BA) – falecida;

Sônia de Ktembo – ìyálórìṣà na cidade de Feira de Santana (BA) – falecida;

Tesanjile de Ktembo – bàbálórìṣà radicado na cidade de Recife (PE) – vivo;

Ubirajara Barbosa Fonseca – ògá na cidade de Cutia em São Paulo (SP) – vivo;

Vera de Obalúwaíyè – ìyálórìṣà na cidade de Feira de Santana (BA) – falecida;

Zeca de Iemanjá – bàbálórìṣà na cidade de Feira de Santana (BA) – falecido.

Netos de santo conhecidos de Justiniano Rodrigues de Souza

Até o momento, a pesquisa identifica os seguintes netos rituais:

Antônio Carlos da Silva Costa de Souza (Thonny Hawany) – bàbálórìṣà na cidade de Caetité (BA) – vivo;

Egídio Pereira do Nascimento, iniciado por Zeca de Iemanjá em 1975, tendo tomado as obrigações de 14 e 21 anos com Justiniano – Feira de Santana (BA);

Josias Correia Marques (Joca de Ọ̀ṣùn) – radicado em Feira de Santana (BA) – vivo.

Referencial teórico:

FONSECA, Ubirajara Barbosa. Ògá, filho de àṣẹ de Justiniano Rodrigues de Souza. Testemunho oral sobre a trajetória ritual de Justiniano Rodrigues de Souza, sua iniciação na tradição Jeje, a fundação do terreiro Viva Deus Ofi Obá Olórun em Acupe e a confluência das tradições Jeje, Angola e Ketu em sua prática religiosa. Informante atualmente residente no Estado de São Paulo.

QUEIROZ, Moacir Dias. Ọ̀gá, filho de àṣẹ de Justiniano Rodrigues de Souza. Testemunho oral sobre a desativação e transformação em residência do terreiro Viva Deus Ofi Obá Olórun, no distrito de Acupe, município de Santo Amaro da Purificação (BA).

SOUZA, Antônio Carlos da Silva Costa de. Testemunho de observação direta sobre a existência e funcionamento do terreiro fundado por Justiniano Rodrigues de Souza na cidade de Feira de Santana (BA), a partir de visita realizada no final da década de 1990.

Nota importante. Os dados aqui apresentados são parciais e provisórios, estando abertos à ampliação, correção e complementação a partir de novas fontes orais, documentais e testemunhais.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Pai Ajaocí de Nanã: memória, história e legado no Candomblé do Brasil

Pai Ajaocí de Nanã, também conhecido como Joselito de Souza Costa, foi um respeitado bàbálórìṣà de Nanã que marcou profundamente a história do Candomblé em São Paulo e no Brasil. Natural de Feira de Santana (BA), integrou o grande movimento migratório de homens e mulheres de àṣẹ que, a partir da segunda metade do século XX, levaram para o Sudeste os fundamentos, os ritos e as memórias ancestrais do Candomblé baiano, contribuindo decisivamente para sua consolidação em território paulista.

Estabelecido em São Paulo desde o início da década de 1960, Pai Ajaocí tornou-se uma referência religiosa especialmente na região do Rio Pequeno, onde conduziu sua casa espiritual, conhecida como Casa do Boiadeiro Rei da Hungria. Seu terreiro não era apenas um espaço de culto, mas também um lugar de acolhimento, formação religiosa, transmissão de saberes e resistência cultural, em um contexto urbano ainda fortemente marcado pela intolerância religiosa e pelo racismo estrutural.

Como sacerdote e filho de Nanã, orixá da ancestralidade profunda, do barro primordial e da memória dos mais velhos, Pai Ajaocí era reconhecido por sua condução ritual firme, ética e cuidadosa, pautada no respeito absoluto à tradição, na centralidade dos mais velhos e na preservação rigorosa dos fundamentos do àṣẹ. Sua atuação dialogou com diversas casas de àṣẹ, formou filhos e filhas de santo e manteve vivos os vínculos com as linhagens e tradições oriundas da Bahia.

Entre os filhos formados por Pai Ajaocí está Thonny Hawany, filho de Ọya, iniciado por ele em 25 de outubro de 1985, na cidade de São Paulo. Essa relação de paternidade espiritual foi marcada pela fidelidade, pelo respeito e pela observância rigorosa dos ensinamentos recebidos. Ao longo de toda a sua trajetória religiosa, Thonny Hawany manteve-se fiel aos fundamentos transmitidos por Pai Ajaocí, honrando-os em sua prática cotidiana, em sua condução sacerdotal e na edificação do Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn.

O nome de Pai Ajaocí de Nanã aparece em registros acadêmicos e levantamentos sobre os Candomblés de São Paulo, o que confirma a relevância de sua trajetória para além da memória oral das comunidades de àṣẹ. Ainda assim, como ocorre com muitos sacerdotes e sacerdotisas das religiões de matriz africana, grande parte de seu legado permanece viva principalmente na oralidade, na lembrança de seus filhos espirituais e na continuidade ritual de sua descendência religiosa.

Ao registrar a memória de Pai Ajaocí de Nanã, o Blog do Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn reafirma seu compromisso com a valorização das trajetórias negras, religiosas e ancestrais que ajudaram a construir o Candomblé no Brasil. Honrar Pai Ajaocí é reconhecer aqueles e aquelas que, com coragem, fé e dedicação, sustentaram o àṣẹ em tempos difíceis e abriram caminhos seguros para as gerações que vieram depois.

Àṣẹ à memória de Pai Ajaocí de Nanã.

Referencial teórico:

PRANDI, Reginaldo. Os candomblés de São Paulo: a velha magia na metrópole nova. São Paulo: Hucitec; Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP), 1991.

SILVA, Vagner Gonçalves da. Orixás da metrópole. Petrópolis: Vozes, 1995.

SILVA, Vagner Gonçalves da. Candomblé e Umbanda: caminhos da devoção brasileira. São Paulo: Selo Negro, 2005.

SÃO PAULO (Estado). Levantamentos e registros de casas de matriz africana na cidade de São Paulo. Décadas de 1980–1990. Documentos técnicos e bases de dados institucionais utilizados por pesquisadores do campo das religiões afro-brasileiras.

HAWANY, Thonny. Depoimento pessoal e memória sacerdotal sobre Pai Ajaocí de Nanã. Iniciação realizada em 25 out. 1985. Fonte oral direta, preservada no âmbito do Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn.

Texto organizado pelo bàbá Thonny Hawany.


Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn - localização, história e luta por (r)existência

A comunidade tradicional de matriz africana Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn, mantida pela Associação Cultural Afro-Brasileira, tem sua origem vinculada ao retorno do bàbálórìṣà Antônio Carlos da Silva Costa de Souza (bàbá Thonny Hawany) ao estado da Bahia, no ano de 1989. Influenciado por familiares e amigos, iniciou em Caetité uma trajetória marcada pelo acolhimento espiritual de pessoas que o procuravam em busca de cura para dores físicas, emocionais e espirituais, dando início à formação de uma comunidade de fé, cuidado e pertencimento.

Nos primeiros anos, o bàbá Thonny Hawany e os primeiros filhos e filhas do Ojú Oòrùn fixaram residência no bairro Alto do Cristo, na cidade de Caetité. Esse período foi profundamente marcado por episódios reiterados de preconceito e racismo religioso, que se manifestaram não apenas por meio de perseguições e agressões verbais, mas também por violências físicas dirigidas aos membros da comunidade, revelando a intolerância enfrentada pelas religiões de matriz africana no contexto local.

Em 1991, por meio do esforço coletivo dos filhos e filhas da casa e, sobretudo, com a intermediação da então primeira-dama do município, senhora Marlene Montenegro Cerqueira de Oliveira, foi viabilizada a cessão/doação do terreno destinado ao uso e à ocupação da comunidade Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn. Tal cessão ocorreu durante a gestão do então prefeito Dácio Alves de Oliveira, considerando-se que a área integrava o conjunto das terras devolutas pertencentes ao território político-administrativo do município.

O terreno, localizado no entroncamento da Avenida dos Orixás (antiga Estrada Brejinho das Ametistas) com a Estrada da Torre, na região dos Gerais, encontrava-se, à época, afastado do núcleo urbano de Caetité, o que contribuiu para reduzir a incidência direta das violências religiosas vivenciadas anteriormente. Desde então, o Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn ocupa de forma contínua esse espaço, transformando-o em território sagrado e significativo.

Cabe salientar que a sacralidade do território não se constitui apenas pelas edificações destinadas aos cultos, rituais e assentamentos religiosos, mas também pelas estruturas de moradia de diversos membros da comunidade e, de modo especial, pela relação simbiótica estabelecida com a área de vegetação nativa presente no terreno. A mata, composta por exemplares típicos do bioma Cerrado, bem como as espécies vegetais cultivadas e manejadas pela própria comunidade, integra o sistema religioso, cultural e ambiental do Ojú Oòrùn, reafirmando sua condição de território tradicional de matriz africana.

Embora fundado em 1991, o Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn foi formalmente registrado no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) apenas em 2004, durante a gestão do então presidente Reginaldo Conceição Silva, consolidando-se juridicamente como associação cultural sem fins lucrativos.

A história do Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn se confunde, indissociavelmente, com a trajetória de seus filhos e filhas, que fizeram do terreiro um espaço de existência plena, dignidade, reconstrução de ancestralidades e afirmação identitária enquanto homens e mulheres de àṣẹ.

Um novo ciclo histórico teve início em 13 de março de 2024, quando o território do Ojú Oòrùn foi invadido por particulares envolvidos em práticas de especulação imobiliária. Esse episódio marca a fase contemporânea da comunidade, caracterizada pelo fortalecimento de sua organização política, jurídica e comunicacional. A partir desse contexto, as redes sociais do Ojú Oòrùn foram potencializadas pelo engajamento de filhos, filhas, amigos e simpatizantes, ampliando a visibilidade pública da luta pelo direito ao território, à liberdade religiosa e à preservação de seus modos de vida.

Atualmente, o Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn investe de forma sistemática em sua consolidação social, econômica, arquitetônica, cultural e religiosa, por meio do desenvolvimento de múltiplos projetos e frentes de atuação, reafirmando-se como espaço vivo de fé, resistência, ancestralidade e produção de futuros.

Referencial teórico:

HAWANY, Thonny. Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn - localização, história e luta por (r)existência. Fonte oral direta, preservada no âmbito do Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn.


Thonny Hawany – sacerdote fundador do Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn

Thonny Hawany, nome social de Antônio Carlos da Silva Costa de Souza, nasceu em 13 de junho de 1966, na Fazenda Vargem Comprida, distrito de Morrinhos, município de Guanambi, no sertão da Bahia. Filho de Gercino Júlio da Silva e de Izabel Barbosa da Silva, iniciou sua trajetória de vida marcada por deslocamentos, aprendizados e compromissos que, ao longo do tempo, moldaram sua identidade intelectual, espiritual e comunitária.

Ainda criança, aos nove anos de idade, mudou-se com a família para a cidade de Caetité (BA), onde cursou até a terceira série do ensino primário no Grupo Escolar Maria Neves Lobão. Em 1978, acompanhando novamente os familiares, transferiu-se para o estado de São Paulo, onde concluiu o ensino médio na Escola Estadual Professora Guimar Rocha Rinaldi. Após finalizar a educação básica, em 1987, retornou à Bahia para rever parentes e amigos e, entre idas e vindas, estabeleceu-se definitivamente em Caetité no ano de 1989.

Vocacionado para o magistério, passou a lecionar no Instituto de Educação Anísio Teixeira, atuando junto a turmas do ensino secundário. Em 1991, ingressou na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caetité — atual Campus VI da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) —, onde cursou Licenciatura em Letras, com habilitação em Língua Portuguesa, Língua Inglesa e respectivas literaturas. Nesse mesmo ano, em 10 de março de 1991, com o apoio de lideranças e personalidades caetiteenses, fundou o Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn, casa religiosa que se tornaria referência espiritual, cultural e comunitária ao longo das décadas seguintes.

Iniciado para Ọ̀ya em 25 de outubro de 1985, na cidade de São Paulo, pelo bàbálórìṣà Joselito de Souza Costa — conhecido como Ajaosí de Nà-bùkú —, Thonny Hawany construiu sua caminhada sacerdotal pautada na fidelidade aos princípios do candomblé, no compromisso com a ancestralidade e na responsabilidade com a transmissão do àsẹ. Mesmo diante das exigências da vida profissional, jamais se afastou de suas obrigações como sacerdote fundador do Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn.

Em dezembro de 1994, concluiu a graduação em Letras e, em fevereiro de 1995, foi contratado por uma rede privada de ensino, mudando-se para o estado de Rondônia. Ali permaneceu por quase 23 anos, período em que consolidou sua carreira acadêmica e constituiu sua família. Em dezembro de 2000, adotou seu primogênito, Jefferson Wagner Silveira e Silva. Em 2012, casou-se com Darciano Costa de Souza Silva e, juntos, adotaram sua filha caçula, Maria Vitória Costa de Souza Silva, em 2017.

No campo acadêmico, ampliou significativamente sua formação, graduando-se também em Direito (2011) e realizando especializações em Metodologia e Didática do Ensino Superior (1999), Língua Portuguesa (2000) e Design Instrucional (2015), além de concluir o mestrado em Educação no ano de 2007. Sua atuação profissional em Rondônia se destacou tanto no ensino quanto na gestão educacional, sempre articulada a uma postura ética, humanista e comprometida com a justiça social.

Em fevereiro de 2019, retornou à Bahia por meio de uma cooperação técnica entre o Instituto Federal de Rondônia, onde era servidor, e o Instituto Federal Baiano. Em novembro do mesmo ano, foi redistribuído definitivamente para o IF Baiano, passando a atuar inicialmente em Salvador como Diretor de Educação a Distância, função exercida entre 2019 e 2021. A partir de janeiro de 2022, foi removido para o Campus de Bom Jesus da Lapa, no oeste baiano, a cerca de 165 quilômetros de Caetité.

Desde então, divide-se — como costuma afirmar — entre suas duas grandes missões de vida: a docência, como professor da Educação Básica, Técnica e Tecnológica do Instituto Federal Baiano – Campus Bom Jesus da Lapa, e o sacerdócio, como bàbálórìṣà do Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn. Paralelamente, atua como militante LGBTQIAPN+, sendo fundador do Grupo Arco-Íris de Rondônia (GAYRO), criado em 2007, além de se dedicar à escrita e à poesia, com produções publicadas em revistas científicas, espaços acadêmicos e em seu blog pessoal (www.thonnyhawany.com).

Sua trajetória é marcada pela intersecção entre educação, religiosidade, ancestralidade, militância social e produção intelectual, configurando-se como um legado vivo de resistência, cuidado, compromisso comunitário e afirmação da vida em todas as suas dimensões.

Referencial teórico:

HAWANY, Thonny. Memórias sobre o sacerdote fundador do Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn. Fonte oral direta, preservada no âmbito do Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn.


Caracterização e Localização do Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn

O Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn, cujo nome em português significa Casa do Poder do Olho do Sol, está situado no entroncamento da Avenida dos Orixás com a Estrada das Torres, em área periférica da cidade de Caetité, inserida no território de identidade do Sertão Produtivo, no estado da Bahia. Fundado em 10 de março de 1991, conforme Ata nº 01, o terreiro foi formalmente registrado em 2004 como entidade civil sem fins lucrativos, sob o CNPJ nº 06.696.631/0001-73, consolidando-se também como sujeito jurídico no campo dos direitos culturais e religiosos.

O Sertão Produtivo da Bahia apresenta uma configuração cultural e religiosa marcada, historicamente, pelo predomínio do catolicismo popular e, nas últimas décadas, pela expressiva expansão de denominações evangélicas, em diálogo com valores, práticas e modos de vida sertanejos. As tradições afro-brasileiras, embora presentes e atuantes, não possuem na região a mesma secularidade, visibilidade pública e continuidade histórica observadas em Salvador e nas cidades do Recôncavo Baiano, onde os terreiros se estruturaram desde o período colonial. No contexto sertanejo, essas expressões religiosas se desenvolveram de forma mais dispersa, frequentemente silenciadas ou invisibilizadas, configurando-se, sobretudo, como espaços de resistência, reinvenção e afirmação identitária no tempo presente.

Inserida nesse cenário, Caetité destaca-se por sua sólida tradição histórica, cultural e educacional, afirmando-se como polo regional de serviços, comércio e produção cultural, fortemente atravessado pela identidade sertaneja. No campo religioso, a cidade expressa a diversidade característica do Sertão Produtivo, abrigando diferentes matrizes de fé, entre as quais as religiões de matriz africana resistem, se reorganizam e constroem estratégias de permanência, ainda que em condições de menor reconhecimento social e institucional.

Nesse espaço-tempo marcado por disputas simbólicas, assimetrias de poder e processos de invisibilização, o Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn assume papel central como território de preservação da ancestralidade afro-brasileira, produção de sentido comunitário e afirmação de direitos culturais. Sua presença no Sertão Produtivo não representa apenas a continuidade de uma tradição religiosa, mas constitui um gesto histórico e político de resistência, memória e reencantamento do território, contribuindo de forma decisiva para ampliar a visibilidade, a legitimidade e o reconhecimento das tradições de matriz africana na região.

Referencial teórico:

HAWANY, Thonny. Caracterização e Localização do Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn. Fonte oral direta, preservada no âmbito do Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Fundamentação Legal de um Terreiro de Candomblé

O Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn, na condição de terreiro de Candomblé e comunidade tradicional de matriz africana, encontra amplo respaldo na legislação brasileira, que reconhece, protege e valoriza os povos e comunidades tradicionais como sujeitos coletivos de direitos.

O Decreto nº 6.040, de 7 de fevereiro de 2007, ao instituir a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais (PNPCT), define como povos e comunidades tradicionais aqueles que possuem formas próprias de organização social, ocupam e utilizam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica. Nesse escopo, os terreiros de religiões de matriz africana são explicitamente reconhecidos como comunidades tradicionais, em razão de seus modos específicos de viver, crer, organizar-se e transmitir saberes ancestrais.

A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, ao proteger o patrimônio cultural brasileiro, assegura, em seus artigos 215 e 216, a proteção das manifestações culturais afro-brasileiras, reconhecendo-as como parte indissociável do patrimônio cultural nacional. Esses dispositivos impõem ao Estado o dever de garantir o pleno exercício dos direitos culturais, bem como de proteger os bens de natureza material e imaterial que constituem a identidade, a memória e a história dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, incluindo as comunidades de terreiro.

Esse reconhecimento constitucional é reforçado pelo Decreto nº 7.387, de 9 de dezembro de 2010, que institui a Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial (PNPIR), cujo objetivo é combater o racismo estrutural e institucional, promover a igualdade de oportunidades e assegurar o respeito às expressões religiosas e culturais de matriz africana. Tal política reafirma o dever do poder público de proteger os terreiros contra a intolerância religiosa, a discriminação racial e as violações de direitos historicamente impostas a essas comunidades.

Dessa forma, os terreiros de Candomblé, como o Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn, configuram-se como sujeitos coletivos de direitos, titulares de proteção jurídica específica, com acesso a políticas públicas voltadas à preservação de sua ancestralidade, de sua religiosidade, de seus territórios simbólicos e materiais, bem como de seus modos próprios de organização e transmissão de saberes. Trata-se de um reconhecimento que não se limita à dimensão religiosa, mas abrange aspectos culturais, sociais, históricos e identitários fundamentais para a dignidade e a continuidade dessas comunidades tradicionais.

Referencial teórico:

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Promulgada em 5 de outubro de 1988. Disponível no Diário Oficial da União, Brasília, DF, 5 out. 1988.

BRASIL. Decreto nº 6.040, de 7 de fevereiro de 2007. Institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais – PNPCT. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 8 fev. 2007.

BRASIL. Decreto nº 7.387, de 9 de dezembro de 2010. Institui a Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial – PNPIR. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 10 dez. 2010.




Caracterização social, racial e territorial do Àṣẹ Ojú Oòrùn

 

O Àṣẹ Ojú Oòrùn constitui-se como uma comunidade tradicional de matriz africana enraizada nas experiências históricas, sociais e espirituais da população negra brasileira. Formado majoritariamente por pessoas negras, oriundas de territórios periféricos e populares, o terreiro expressa, em sua composição humana e em sua organização comunitária, as marcas profundas das desigualdades sociais, do racismo estrutural e das exclusões históricas que atravessam a sociedade brasileira.

Seus membros carregam trajetórias de vida forjadas em contextos de vulnerabilidade social, mas também de intensa resistência cultural, política e espiritual. A identidade do Àṣẹ Ojú Oòrùn se constrói a partir da interseção entre raça, classe e território, compreendendo o terreiro não apenas como espaço religioso, mas como território simbólico de pertencimento, proteção, reconstrução de laços comunitários e reafirmação de dignidade.

Enquanto comunidade tradicional, o Àṣẹ Ojú Oòrùn atua como guardião de saberes ancestrais afro-diaspóricos, transmitidos oralmente e vivenciados cotidianamente por meio dos rituais, da organização hierárquica, das práticas de cuidado coletivo e do compromisso ético com os valores civilizatórios africanos. Nesse sentido, o terreiro se afirma como espaço de resistência ao apagamento cultural, de enfrentamento ao racismo religioso e de valorização das identidades negras, periféricas e historicamente marginalizadas.

Inserido geograficamente no município de Caetité, no Território de Identidade Sertão Produtivo do Estado da Bahia, o Àṣẹ Ojú Oòrùn tem sua sede localizada na Avenida dos Orixás com a Estrada das Torres, antiga saída para Brejinho das Ametistas. Essa inserção territorial não é meramente geográfica, mas profundamente social e simbólica, refletindo em sua dinâmica comunitária as características históricas, culturais, raciais e socioeconômicas da região em que está situado.

Ao articular espiritualidade, cultura, memória e ação comunitária, o Àṣẹ Ojú Oòrùn promove não apenas a vivência do sagrado, mas também processos de fortalecimento identitário, de consciência racial e de construção de cidadania, contribuindo para a afirmação de direitos, a preservação das tradições de matriz africana e a promoção de justiça social no território em que atua.

Referencial teórico:

HAWANY, Thonny. Caracterização social, racial e territorial do Àṣẹ Ojú Oòrùn. Fonte oral direta, preservada no âmbito do Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn.

Bem-vindos ao Blog do Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn


Este blog nasce como extensão viva do Àṣẹ Ojú Oòrùn, comunidade tradicional de matriz africana fundada em 10 de março de 1991, na cidade de Caetité. Aqui partilhamos memória, fé, cultura e luta, afirmando o terreiro como espaço de ancestralidade, cuidado coletivo e resistência frente às desigualdades que marcam nossos corpos e territórios.

Mais que um lugar de culto, o Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn é território de dignidade e reconstrução de histórias negras e periféricas, amparado pelo reconhecimento legal que assegura os direitos dos povos e comunidades tradicionais. Neste espaço, reunimos reflexões, registros, ensinamentos e ações que fortalecem o àṣẹ, promovem a igualdade racial e celebram a riqueza das tradições afro-brasileiras.

Seja bem-vinda e bem-vindo! Que este blog seja caminho de encontro, aprendizado e reafirmação do nosso compromisso com a ancestralidade, a justiça social e a vida em comunidade. Àṣẹ!

Texto organizado pelo bàbá Thonny Hawany.