A comunidade tradicional de matriz africana Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn, mantida pela Associação Cultural Afro-Brasileira, tem sua origem vinculada ao retorno do bàbálórìṣà Antônio Carlos da Silva Costa de Souza (bàbá Thonny Hawany) ao estado da Bahia, no ano de 1989. Influenciado por familiares e amigos, iniciou em Caetité uma trajetória marcada pelo acolhimento espiritual de pessoas que o procuravam em busca de cura para dores físicas, emocionais e espirituais, dando início à formação de uma comunidade de fé, cuidado e pertencimento.
Nos primeiros anos, o bàbá Thonny Hawany e os primeiros filhos e filhas do Ojú Oòrùn fixaram residência no bairro Alto do Cristo, na cidade de Caetité. Esse período foi profundamente marcado por episódios reiterados de preconceito e racismo religioso, que se manifestaram não apenas por meio de perseguições e agressões verbais, mas também por violências físicas dirigidas aos membros da comunidade, revelando a intolerância enfrentada pelas religiões de matriz africana no contexto local.
Em 1991, por meio do esforço coletivo dos filhos e filhas da casa e, sobretudo, com a intermediação da então primeira-dama do município, senhora Marlene Montenegro Cerqueira de Oliveira, foi viabilizada a cessão/doação do terreno destinado ao uso e à ocupação da comunidade Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn. Tal cessão ocorreu durante a gestão do então prefeito Dácio Alves de Oliveira, considerando-se que a área integrava o conjunto das terras devolutas pertencentes ao território político-administrativo do município.
O terreno, localizado no entroncamento da Avenida dos Orixás (antiga Estrada Brejinho das Ametistas) com a Estrada da Torre, na região dos Gerais, encontrava-se, à época, afastado do núcleo urbano de Caetité, o que contribuiu para reduzir a incidência direta das violências religiosas vivenciadas anteriormente. Desde então, o Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn ocupa de forma contínua esse espaço, transformando-o em território sagrado e significativo.
Cabe salientar que a sacralidade do território não se constitui apenas pelas edificações destinadas aos cultos, rituais e assentamentos religiosos, mas também pelas estruturas de moradia de diversos membros da comunidade e, de modo especial, pela relação simbiótica estabelecida com a área de vegetação nativa presente no terreno. A mata, composta por exemplares típicos do bioma Cerrado, bem como as espécies vegetais cultivadas e manejadas pela própria comunidade, integra o sistema religioso, cultural e ambiental do Ojú Oòrùn, reafirmando sua condição de território tradicional de matriz africana.
Embora fundado em 1991, o Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn foi formalmente registrado no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) apenas em 2004, durante a gestão do então presidente Reginaldo Conceição Silva, consolidando-se juridicamente como associação cultural sem fins lucrativos.
A história do Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn se confunde, indissociavelmente, com a trajetória de seus filhos e filhas, que fizeram do terreiro um espaço de existência plena, dignidade, reconstrução de ancestralidades e afirmação identitária enquanto homens e mulheres de àṣẹ.
Um novo ciclo histórico teve início em 13 de março de 2024, quando o território do Ojú Oòrùn foi invadido por particulares envolvidos em práticas de especulação imobiliária. Esse episódio marca a fase contemporânea da comunidade, caracterizada pelo fortalecimento de sua organização política, jurídica e comunicacional. A partir desse contexto, as redes sociais do Ojú Oòrùn foram potencializadas pelo engajamento de filhos, filhas, amigos e simpatizantes, ampliando a visibilidade pública da luta pelo direito ao território, à liberdade religiosa e à preservação de seus modos de vida.
Atualmente, o Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn investe de forma sistemática em sua consolidação social, econômica, arquitetônica, cultural e religiosa, por meio do desenvolvimento de múltiplos projetos e frentes de atuação, reafirmando-se como espaço vivo de fé, resistência, ancestralidade e produção de futuros.
Referencial teórico:
HAWANY, Thonny. Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn - localização, história
e luta por (r)existência. Fonte oral direta, preservada no âmbito do Ilé Àṣẹ
Ojú Oòrùn.

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