domingo, 25 de janeiro de 2026

Bàbá Justiniano Rodrigues de Souza: história, memórias e legado

Quando se iniciou esta pesquisa, os dados disponíveis sobre Justiniano Rodrigues de Souza eram ainda fragmentários e marcados por grande incerteza. No entanto, os levantamentos realizados até o presente momento já permitem delinear um conjunto significativo de informações, capazes de oferecer um primeiro quadro histórico consistente sobre sua trajetória ritual e seu legado no Candomblé baiano.

O bàbálórìṣà Justiniano Rodrigues de Souza, mais conhecido entre os praticantes do Candomblé da Bahia como bàbá Lẹ́ndẹ̀nbẹ̀ — nome cuja interpretação etimológica corrente remete à ideia de “aquele que chegou e se estabeleceu no lugar” — foi iniciado por Pai Jidená, em data e local ainda não confirmados pelas fontes disponíveis até o momento, permanecendo este ponto como uma lacuna aberta à continuidade da investigação.

Segundo o ọ̀gá Ubirajara Barbosa Fonseca, mais conhecido como Bira de Ògún, pai Justiniano Rodrigues de Souza foi fundador do terreiro Viva Deus Ofi Obá Olórun, localizado no distrito de Acupe, pertencente ao município de Santo Amaro da Purificação, no Estado da Bahia. Conforme informou o ọ̀gá Moacir Dias Queiroz, filho de Àṣẹ de pai Justiniano, o referido terreiro foi posteriormente desativado, deixando de existir como espaço ritual e tendo sido integralmente convertido em residência, o que evidencia processos de apagamento material de importantes casas tradicionais do Candomblé no Recôncavo Baiano.

Além do terreiro de Acupe, há indícios de que pai Justiniano tenha sido também fundador de outros dois terreiros de Candomblé: um na Vila de São Francisco, em Santo Amaro da Purificação, e outro na cidade de Feira de Santana. Este último foi visitado pessoalmente pelo autor em viagem realizada no final da década de 1990, constituindo-se tal experiência em testemunho direto de sua existência e funcionamento, o que reforça a confiabilidade desta informação.

Ainda conforme o ọ̀gá Ubirajara Barbosa Fonseca, atualmente residente no Estado de São Paulo, pai Justiniano Rodrigues de Souza teria sido iniciado na tradição Jeje, inicialmente para Ọ̀ṣùn. Segundo o mesmo informante, ao longo de sua trajetória ritual, pai Justiniano realizou obrigações em diferentes nações, circunstância que resultou na constituição de uma prática religiosa marcada pela confluência das tradições Jeje, Angola e Ketu, configurando um Candomblé de caráter híbrido, típico dos processos históricos de circulação, adaptação e recomposição das matrizes africanas no Brasil.

Nas verificações realizadas até o presente momento, constatou-se a existência de registros de filhos e filhas de pai Justiniano iniciados tanto para Òrìṣà quanto para Nkisi. Entre estes últimos, destacam-se Sônia, em Feira de Santana, e Tesanjile, no Recife, ambos iniciados para o Nkisi Ktembo. Tal diversidade de filiações rituais reforça o caráter plural de sua linhagem, evidenciando uma prática religiosa estruturada na confluência efetiva entre diferentes matrizes do Candomblé.

A pesquisa segue em curso, buscando, identificando e apurando informações junto a filhos e netos de pai Justiniano acerca de sua vida e de sua trajetória de Àṣẹ. A seguir, enumero, em ordem alfabética, alguns nomes de filhos e netos de Àṣẹ com os quais dialoguei diretamente no âmbito desta investigação. Do mesmo modo, registro também os nomes de outros filhos e netos que foram mencionados pelos entrevistados ao longo da pesquisa.

Filhos de santo conhecidos de Justiniano Rodrigues de Souza (Lẹ́ndẹ̀nbẹ̀)

Até o presente estágio da pesquisa, foram identificados os seguintes filhos e filhas de santo:

Cosme de Ọya – bàbálórìṣà na cidade de Feira de Santana (BA) – vivo;

João de Ọya – bàbálórìṣà em Acupe, distrito de Santo Amaro da Purificação (BA) – falecido;

Joselito de Souza Costa – bàbálórìṣà na cidade de São Paulo (SP) – falecido;

Liomário Silva dos Santos – bàbálórìṣà na cidade de Sobara 9BA) – vivo;

Maria Amália Gonçalves (Obà) – ìyálórìṣà na cidade de Feira de Santana (BA) – falecida;

Moacir Dias Queiroz – filho de Helena Dias Queiroz e de Afonso Queiroz – Feira de Santana (BA);

Moacir Dias Queiroz – ọ̀gá em Acupe, distrito de Santo Amaro da Purificação (BA) – vivo;

Perolina Moreira da Silva – ìyálórìsà na cidade de Sobara (BA) – falecida;

Sônia de Ktembo – ìyálórìṣà na cidade de Feira de Santana (BA) – falecida;

Tesanjile de Ktembo – bàbálórìṣà radicado na cidade de Recife (PE) – vivo;

Ubirajara Barbosa Fonseca – ògá na cidade de Cutia em São Paulo (SP) – vivo;

Vera de Obalúwaíyè – ìyálórìṣà na cidade de Feira de Santana (BA) – falecida;

Zeca de Iemanjá – bàbálórìṣà na cidade de Feira de Santana (BA) – falecido.

Netos de santo conhecidos de Justiniano Rodrigues de Souza

Até o momento, a pesquisa identifica os seguintes netos rituais:

Antônio Carlos da Silva Costa de Souza (Thonny Hawany) – bàbálórìṣà na cidade de Caetité (BA) – vivo;

Egídio Pereira do Nascimento, iniciado por Zeca de Iemanjá em 1975, tendo tomado as obrigações de 14 e 21 anos com Justiniano – Feira de Santana (BA);

Josias Correia Marques (Joca de Ọ̀ṣùn) – radicado em Feira de Santana (BA) – vivo.

Referencial teórico:

FONSECA, Ubirajara Barbosa. Ògá, filho de àṣẹ de Justiniano Rodrigues de Souza. Testemunho oral sobre a trajetória ritual de Justiniano Rodrigues de Souza, sua iniciação na tradição Jeje, a fundação do terreiro Viva Deus Ofi Obá Olórun em Acupe e a confluência das tradições Jeje, Angola e Ketu em sua prática religiosa. Informante atualmente residente no Estado de São Paulo.

QUEIROZ, Moacir Dias. Ọ̀gá, filho de àṣẹ de Justiniano Rodrigues de Souza. Testemunho oral sobre a desativação e transformação em residência do terreiro Viva Deus Ofi Obá Olórun, no distrito de Acupe, município de Santo Amaro da Purificação (BA).

SOUZA, Antônio Carlos da Silva Costa de. Testemunho de observação direta sobre a existência e funcionamento do terreiro fundado por Justiniano Rodrigues de Souza na cidade de Feira de Santana (BA), a partir de visita realizada no final da década de 1990.

Nota importante. Os dados aqui apresentados são parciais e provisórios, estando abertos à ampliação, correção e complementação a partir de novas fontes orais, documentais e testemunhais.

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