Mãe Neinha de Nàná é fundadora e
dirigente espiritual do Ilé Àṣẹ Ìràwọ̀ Nà-Bùkú, localizado no município de
Juquitiba, no estado de São Paulo. Sua casa de santo constitui hoje um polo de
preservação da memória, da liturgia e da ética ritual do Candomblé tradicional,
mantendo viva a transmissão de fundamentos, cantigas, rezas, preceitos e
obrigações herdadas de suas casas-matrizes na Bahia. Ao longo de sua
trajetória, Mãe Neinha consolidou-se como referência religiosa não apenas para
seus filhos e filhas de santo diretos, mas também para toda uma rede ampliada
de descendência ritual espalhada por diferentes estados brasileiros.
Sua formação espiritual está
enraizada em uma das mais antigas e prestigiadas genealogias do Candomblé
brasileiro. Mãe Neinha foi iniciada pelo saudoso bàbálórìṣà Manoel Cerqueira de
Amorim, fundador do Ilé Àṣẹ Ibese Alaketu Ògún Mejeje, também conhecido como Àṣẹ
Muritiba. Esta casa, por sua vez, descende diretamente do Ilé Àṣẹ Omi Ìyámasé —
mais conhecido como Àṣẹ Gantois — uma das grandes casas-matrizes do Candomblé
da Bahia, formada como dissidência histórica do Ilé Àṣẹ Ìyá Naso Oká, a célebre
Casa Branca do Engenho Velho, fundada por Ìyá Francisca da Silva (Ìyá Nassô)
por volta de 1830.
Essa linhagem — Casa Branca →
Gantois → Muritiba → Ilé Àṣẹ Ìràwọ̀ Nà-Bùkú — inscreve Mãe Neinha em uma cadeia
iniciática que remonta aos primórdios da institucionalização do Candomblé nagô
na Bahia, conectando-a diretamente às matrizes fundacionais da religião no
Brasil. Trata-se, portanto, de uma herdeira legítima de um corpo ritual que
atravessou quase dois séculos de perseguições, resistências, reorganizações
territoriais e reafirmações identitárias.
Ao transmitir o àṣẹ a Bàbá Thonny
Hawany após a morte de Pai Ajaosi de Nà-Bùkú, Mãe Neinha não apenas garantiu a
continuidade ritual de sua descendência espiritual em São Paulo e na Bahia,
como também reforçou, no plano simbólico e genealógico, os laços entre o Ilé Àṣẹ
Ojú Oòrùn e as grandes casas-matrizes do Candomblé baiano. Esse gesto inscreve
o Ojú Oòrùn em uma rede de pertencimento ritual que ultrapassa fronteiras
geográficas e reafirma sua legitimidade histórica, litúrgica e ancestral.
Referencial teórico:
BASTIDE, Roger. O candomblé da
Bahia: rito nagô. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1978.
CAPONE, Stefania. A busca da
África no candomblé: tradição e poder no Brasil. Rio de Janeiro: Pallas,
2004.
CARNEIRO, Edison. Candomblés
da Bahia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
LIMA, Vivaldo da Costa. A
família de santo nos candomblés jeje-nagôs da Bahia. Salvador: Corrupio,
2003.
PARÉS, Luis Nicolau. A
formação do candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia. Campinas:
Editora da Unicamp, 2006.
PRANDI, Reginaldo. Segredos
guardados: orixás na alma brasileira. São Paulo: Companhia das Letras,
2005.
SILVA, Vagner Gonçalves da. Orixás
da metrópole. São Paulo: Vozes, 1995.
VERGER, Pierre Fatumbi. Notas
sobre o culto aos orixás e voduns na Bahia de Todos os Santos e na antiga Costa
dos Escravos. São Paulo: Edusp, 1999.
Fontes orais:
HAWANY, Thonny. Depoimento oral e
registros de memória sobre a sucessão ritual da linhagem de Nà-Bùkú. Caetité
(BA), [2026]. Comunicação pessoal.
SANTOS, Jucineia Silva Alves
Ferreira dos. Depoimento oral concedido a Antônio Carlos da Silva Costa de
Souza (Thonny Hawany). Juquitiba (SP), [20/01/2026]. Comunicação pessoal.

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