domingo, 25 de janeiro de 2026

Ìyá Jucineia Silva Alves Ferreira dos Santos: acolhimento e continuidade de um legado

Com o falecimento de seu pai de àṣẹ Joselito de Souza Costa, mais conhecido entre o povo do Candomblé como bàbá Ajaosi de Nà-Bùkú, o bàbálórìṣà Thonny Hawany tomou àṣẹ com a ìyálórìṣà Jucineia Silva Alves Ferreira dos Santos, amplamente conhecida como Mãe Neinha de Nà-Bùkú, em janeiro de 2018. A partir desse rito de passagem, passou formalmente a integrar uma das mais importantes e respeitadas linhagens do Candomblé de raiz baiana, reafirmando sua continuidade iniciática dentro de uma genealogia ritual profundamente ancorada na tradição nagô-ketu.

Mãe Neinha de Nàná é fundadora e dirigente espiritual do Ilé Àṣẹ Ìràwọ̀ Nà-Bùkú, localizado no município de Juquitiba, no estado de São Paulo. Sua casa de santo constitui hoje um polo de preservação da memória, da liturgia e da ética ritual do Candomblé tradicional, mantendo viva a transmissão de fundamentos, cantigas, rezas, preceitos e obrigações herdadas de suas casas-matrizes na Bahia. Ao longo de sua trajetória, Mãe Neinha consolidou-se como referência religiosa não apenas para seus filhos e filhas de santo diretos, mas também para toda uma rede ampliada de descendência ritual espalhada por diferentes estados brasileiros.

Sua formação espiritual está enraizada em uma das mais antigas e prestigiadas genealogias do Candomblé brasileiro. Mãe Neinha foi iniciada pelo saudoso bàbálórìṣà Manoel Cerqueira de Amorim, fundador do Ilé Àṣẹ Ibese Alaketu Ògún Mejeje, também conhecido como Àṣẹ Muritiba. Esta casa, por sua vez, descende diretamente do Ilé Àṣẹ Omi Ìyámasé — mais conhecido como Àṣẹ Gantois — uma das grandes casas-matrizes do Candomblé da Bahia, formada como dissidência histórica do Ilé Àṣẹ Ìyá Naso Oká, a célebre Casa Branca do Engenho Velho, fundada por Ìyá Francisca da Silva (Ìyá Nassô) por volta de 1830.

Essa linhagem — Casa Branca → Gantois → Muritiba → Ilé Àṣẹ Ìràwọ̀ Nà-Bùkú — inscreve Mãe Neinha em uma cadeia iniciática que remonta aos primórdios da institucionalização do Candomblé nagô na Bahia, conectando-a diretamente às matrizes fundacionais da religião no Brasil. Trata-se, portanto, de uma herdeira legítima de um corpo ritual que atravessou quase dois séculos de perseguições, resistências, reorganizações territoriais e reafirmações identitárias.

Ao transmitir o àṣẹ a Bàbá Thonny Hawany após a morte de Pai Ajaosi de Nà-Bùkú, Mãe Neinha não apenas garantiu a continuidade ritual de sua descendência espiritual em São Paulo e na Bahia, como também reforçou, no plano simbólico e genealógico, os laços entre o Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn e as grandes casas-matrizes do Candomblé baiano. Esse gesto inscreve o Ojú Oòrùn em uma rede de pertencimento ritual que ultrapassa fronteiras geográficas e reafirma sua legitimidade histórica, litúrgica e ancestral.

Referencial teórico:

BASTIDE, Roger. O candomblé da Bahia: rito nagô. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1978.

CAPONE, Stefania. A busca da África no candomblé: tradição e poder no Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2004.

CARNEIRO, Edison. Candomblés da Bahia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

LIMA, Vivaldo da Costa. A família de santo nos candomblés jeje-nagôs da Bahia. Salvador: Corrupio, 2003.

PARÉS, Luis Nicolau. A formação do candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia. Campinas: Editora da Unicamp, 2006.

PRANDI, Reginaldo. Segredos guardados: orixás na alma brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

SILVA, Vagner Gonçalves da. Orixás da metrópole. São Paulo: Vozes, 1995.

VERGER, Pierre Fatumbi. Notas sobre o culto aos orixás e voduns na Bahia de Todos os Santos e na antiga Costa dos Escravos. São Paulo: Edusp, 1999.

Fontes orais:

HAWANY, Thonny. Depoimento oral e registros de memória sobre a sucessão ritual da linhagem de Nà-Bùkú. Caetité (BA), [2026]. Comunicação pessoal.

SANTOS, Jucineia Silva Alves Ferreira dos. Depoimento oral concedido a Antônio Carlos da Silva Costa de Souza (Thonny Hawany). Juquitiba (SP), [20/01/2026]. Comunicação pessoal.

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