domingo, 25 de janeiro de 2026

Bàbá Manoel Cerqueira de Amorim: linhagem, memória e herança de àṣẹ

A história do Candomblé baiano no século XX é tecida não apenas por grandes casas e nomes amplamente consagrados, mas também por sacerdotes cuja importância se revela sobretudo na transmissão da linhagem, na formação de novas lideranças e na consolidação de casas responsáveis pela preservação de tradições ancestrais. Entre esses nomes, inscreve-se o bàbálórìṣà Manoel Cerqueira de Amorim (Pai Nezinho da Muritiba), personalidade fundamental cuja herança ritual, de modo descendente, alcança diretamente a trajetória do bàbálórìṣà Antônio Carlos da Silva Costa de Souza (Thonny Hawany), a partir do momento em que este toma àṣẹ com a ìyálórìṣà Jucineia Silva Alves Ferreira dos Santos, mais conhecida no campo religioso como mãe Neinha de Nà-Bùkú, filha de àṣẹ de Seu Nezinho.

Bàbá Manoel Cerqueira de Amorim foi reconhecido como bàbá Egbe do Ilé Àṣẹ Omi Ìyámasé (Àṣẹ Gantois), casa de referência na história religiosa da Bahia, o que o situa em uma linhagem de alta relevância no campo ritual nagô-ketu. A condição de bàbá Egbe não apenas o vinculava a uma das mais tradicionais casas do país, mas o colocava como elo ativo na circulação de saberes, ritos e fundamentos que estruturam a continuidade do culto aos òrìṣà.

Além dessa ligação com o Gantois, Manoel Cerqueira de Amorim foi fundador do Ilé Ibẹ̀se Alaketu Ògún Mejeje, casa que se tornou espaço de formação, acolhimento e transmissão ritual, consolidando sua atuação como sacerdote fundador e organizador dessa importante comunidade religiosa. É nesse terreiro que se estabelece uma das heranças mais diretas de sua atuação: ali se forma sua filha de santo Ìyá Neinha de Nàná, que viria a tornar-se, mais tarde, ìyálórìsà de Thonny Hawany.

Desse modo, a história de Manoel Cerqueira de Amorim não é apenas um dado historiográfico ou uma referência distante. Ela se converte em história de linhagem viva. Ao tomar obrigação com Ìyá Neinha de Nàná, sua filha direta de santo, Thonny Hawany inscreveu-se nessa cadeia de transmissão, fazendo de Manoel Cerqueira de Amorim seu avô de àṣẹ — não apenas por definição ritual, mas como presença simbólica que atravessa sua formação, seus fundamentos e seu pertencimento a uma tradição específica do Candomblé nagô.

Assim, recordar Manoel Cerqueira de Amorim é reconhecer que a identidade religiosa não se constrói apenas no presente, mas se ancora em uma genealogia espiritual que nos precede a todos. É nessa continuidade entre casas, pais, mães e filhos de santo que o àṣẹ se preserva, se renova e encontra sentido. A trajetória de Thonny Hawany, portanto, não começa em si ou por si: ela se enraíza na obra de sacerdotes como Manoel Cerqueira de Amorim, cuja memória permanece inscrita no corpo ritual da iniciação e tatuada no legado ancestral.

Referências:

LIMA, Vivaldo da Costa. A família de santo nos candomblés jejes-nagôs da Bahia: um estudo de relações intra-grupais. 2. ed. Salvador: Corrupio, 2003.

SANTOS, Jucineia Silva Alves Ferreira dos. Informações sobre a linhagem de Manoel Cerqueira de Amorim. Depoimento oral concedido a Thonny Hawany. Caetité (BA), 2026.

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