A história do Candomblé baiano no
século XX é tecida não apenas por grandes casas e nomes amplamente consagrados,
mas também por sacerdotes cuja importância se revela sobretudo na transmissão
da linhagem, na formação de novas lideranças e na consolidação de casas
responsáveis pela preservação de tradições ancestrais. Entre esses nomes,
inscreve-se o bàbálórìṣà Manoel Cerqueira de Amorim (Pai Nezinho da Muritiba),
personalidade fundamental cuja herança ritual, de modo descendente, alcança
diretamente a trajetória do bàbálórìṣà Antônio Carlos da Silva Costa de Souza
(Thonny Hawany), a partir do momento em que este toma àṣẹ com a ìyálórìṣà
Jucineia Silva Alves Ferreira dos Santos, mais conhecida no campo religioso
como mãe Neinha de Nà-Bùkú, filha de àṣẹ de Seu Nezinho.
Bàbá Manoel Cerqueira de Amorim foi
reconhecido como bàbá Egbe do Ilé Àṣẹ Omi Ìyámasé (Àṣẹ Gantois), casa de
referência na história religiosa da Bahia, o que o situa em uma linhagem de
alta relevância no campo ritual nagô-ketu. A condição de bàbá Egbe não apenas o
vinculava a uma das mais tradicionais casas do país, mas o colocava como elo ativo
na circulação de saberes, ritos e fundamentos que estruturam a continuidade do
culto aos òrìṣà.
Além dessa ligação com o Gantois,
Manoel Cerqueira de Amorim foi fundador do Ilé Ibẹ̀se Alaketu Ògún Mejeje, casa
que se tornou espaço de formação, acolhimento e transmissão ritual,
consolidando sua atuação como sacerdote fundador e organizador dessa importante
comunidade religiosa. É nesse terreiro que se estabelece uma das heranças mais
diretas de sua atuação: ali se forma sua filha de santo Ìyá Neinha de Nàná, que
viria a tornar-se, mais tarde, ìyálórìsà de Thonny Hawany.
Desse modo, a história de Manoel
Cerqueira de Amorim não é apenas um dado historiográfico ou uma referência
distante. Ela se converte em história de linhagem viva. Ao tomar obrigação com
Ìyá Neinha de Nàná, sua filha direta de santo, Thonny Hawany inscreveu-se nessa
cadeia de transmissão, fazendo de Manoel Cerqueira de Amorim seu avô de àṣẹ —
não apenas por definição ritual, mas como presença simbólica que atravessa sua
formação, seus fundamentos e seu pertencimento a uma tradição específica do
Candomblé nagô.
Assim, recordar Manoel Cerqueira
de Amorim é reconhecer que a identidade religiosa não se constrói apenas no
presente, mas se ancora em uma genealogia espiritual que nos precede a todos. É
nessa continuidade entre casas, pais, mães e filhos de santo que o àṣẹ se
preserva, se renova e encontra sentido. A trajetória de Thonny Hawany,
portanto, não começa em si ou por si: ela se enraíza na obra de sacerdotes como
Manoel Cerqueira de Amorim, cuja memória permanece inscrita no corpo ritual da
iniciação e tatuada no legado ancestral.
Referências:
LIMA, Vivaldo da Costa. A família
de santo nos candomblés jejes-nagôs da Bahia: um estudo de relações
intra-grupais. 2. ed. Salvador: Corrupio, 2003.
SANTOS, Jucineia Silva Alves
Ferreira dos. Informações sobre a linhagem de Manoel Cerqueira de Amorim.
Depoimento oral concedido a Thonny Hawany. Caetité (BA), 2026.

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